A Anthropic atualizou a política de uso do Claude para permitir punições a usuários que tratarem o chatbot de forma abusiva ou cruel de maneira persistente e sem necessidade. A mudança entra em vigor em 12 de novembro, segundo a Olhar Digital e a Canaltech.

As sanções previstas vão de advertências a limitação de funcionalidades, suspensão de contas ou encerramento total do acesso ao serviço. A Canaltech informa que a atualização foi divulgada na quinta-feira (8) e afeta apenas casos extremos, em que a pessoa insiste em comportamentos hostis sem um motivo identificável.

O que fica de fora da proibição

As duas publicações confirmam que a regra não alcança reclamações comuns sobre o funcionamento do Claude, discordâncias com as respostas dadas pelo modelo, criações artísticas com temas sombrios e testes de segurança feitos por pesquisadores. A aplicação prática, segundo a Canaltech, deve continuar sendo feita principalmente pelo próprio Claude, que já pode interromper uma conversa quando identifica uma sequência de interações abusivas sem resposta a tentativas de redirecionamento.

A revisão da política de uso não se limita ao tratamento dado ao chatbot. Olhar Digital e Canaltech apontam que a Anthropic também passou a proibir o uso do Claude em campanhas de desinformação, em tentativas de enganar eleitores ou interferir em eleições, em operações de vigilância indevida e no desenvolvimento de sistemas de armas.

Um debate sobre máquinas e sofrimento

A parte da política voltada à hostilidade contra o chatbot dividiu opiniões fora da empresa. Segundo a Olhar Digital, Aaron Levie, presidente-executivo da Box, chamou a mudança de precaução razoável, mesmo sem acreditar que a IA seja consciente: para ele, treinar modelos futuros com grandes volumes de interações grosseiras pode ter consequências para como esses sistemas se comportam depois. Já o investidor Bill Gurley perguntou publicamente se a nova regra seria um indício de que a Anthropic usa as conversas dos clientes para treinar seus modelos, hipótese que a empresa não confirma.

A Anthropic atribui a mudança aos próprios esforços de prevenção de danos e de uso responsável da tecnologia, sem admitir que o Claude tenha sentimentos ou consciência. Para empresas e usuários no Brasil que utilizam o Claude em produtos e operações comerciais, a atualização significa um novo risco de conformidade a observar a partir de 12 de novembro: comportamentos hostis recorrentes contra o chatbot, mesmo sem intenção de causar dano a terceiros, passam a poder resultar na perda de acesso à conta.

Críticas à decisão

Nem todos concordam com a lógica por trás da nova regra. Segundo a Olhar Digital, o ativista Michael Shellenberger criticou a mudança por considerar que ela atribui características humanas a um sistema de software, e o advogado Barry Scannell seguiu a mesma linha ao afirmar que não se pode ser cruel com números e cálculos matemáticos. Já Scott Stevenson, presidente-executivo da Spellbook, defendeu o raciocínio contrário: atribuir empatia humana à IA, sem qualquer comprovação de que ela exista, pode ampliar a capacidade desses sistemas de influenciar o comportamento das pessoas.

A Canaltech lembra que a Anthropic já havia testado uma versão mais restrita da ideia em agosto de 2025, quando deu aos modelos Claude Opus 4 e 4.1 a capacidade de encerrar, por conta própria, conversas consideradas extremamente nocivas. Até agora, segundo a reportagem, o recurso só havia sido acionado em situações excepcionais. Com a nova política, o mesmo tipo de comportamento abusivo passa a ser também uma violação formal das regras de uso, sujeita a punições que vão além do encerramento daquela conversa específica.

A repercussão chegou a outras empresas de IA. A Olhar Digital registrou que Mustafa Suleyman, diretor de IA da Microsoft, reagiu ao anúncio nas redes sociais com um emoji de rosto derretendo, sem detalhar sua posição. O empreendedor Lachlan Phillips propôs uma saída diferente da punição ao usuário: fazer o Claude simplesmente ignorar insultos e seguir executando a tarefa pedida. A Anthropic diz que pretende agir apenas em casos extremos, mas não detalhou publicamente os critérios que vão separar abuso de frustração comum.