A empresa francesa Mistral lançou nesta terça-feira o Mistral Large 4, um modelo de 1 trilhão de parâmetros apelidado internamente de "Le Chonk", segundo a CNBC, a Wired e o TechCrunch. A companhia diz que o modelo é o mais forte de peso aberto (que pode ser baixado e rodado pelo próprio usuário) já construído fora da China.
Por enquanto, o acesso é limitado a um endpoint público com barreiras de segurança, segundo o TechCrunch. A Mistral planeja liberar os pesos do modelo, que permitem rodá-lo localmente, em cerca de três semanas, depois de concluir testes de segurança — prazo que a CNBC e a Wired descrevem de forma mais genérica como "ainda este mês".
Para que o modelo foi otimizado
As três publicações concordam que o Le Chonk foi treinado com foco especial em código, cibersegurança e finanças. A CNBC cita também manufatura e tarefas multimodais (que combinam texto e imagem no mesmo pedido), enquanto o TechCrunch aponta o design de chips como outro uso prioritário — área ligada a dois investidores da Mistral, a holandesa ASML e a sul-coreana Samsung.
Segundo o vice-presidente de ciência da Mistral, Pierre Stock, em entrevista ao TechCrunch, a empresa vai liberar os pesos de forma controlada, trabalhando com governos e parceiros de confiança para garantir que a tecnologia sirva para defesa e não para ataques. Os resultados de benchmark do modelo ainda não haviam sido divulgados até a publicação das reportagens, segundo o TechCrunch.
Treinado com menos GPUs que os rivais
O modelo foi treinado inteiramente com infraestrutura própria da Mistral, em data centers da empresa na Europa: 4.000 GPUs da Nvidia, segundo a CNBC e o TechCrunch. Stock disse ao TechCrunch que esse número é "duas a três vezes menor" do que o usado pelos concorrentes chineses, e bem menor que o dos rivais de modelo fechado, como OpenAI e Anthropic.
A Wired lembra que modelos de peso aberto custam, na prática, apenas o valor da computação consumida para rodá-los — diferente dos modelos fechados, vendidos por assinatura. A própria Mistral ganha dinheiro de outra forma: cobrando por uso de sua nuvem e oferecendo engenheiros para ajudar clientes a ajustar os modelos às suas necessidades, segundo a publicação.
Guillaume Lample, cofundador e cientista-chefe da Mistral, disse à Wired que o controle sobre o próprio modelo importa inclusive para empresas americanas: "se você usa um modelo fechado, não há garantia de que ele vai continuar disponível amanhã". Segundo Lample, a Mistral tem focado em nichos que os laboratórios maiores deixam de lado: "há muitas áreas em que os outros laboratórios não vão focar tanto".
Mercado mais concorrido
A Mistral havia fechado, em setembro, uma rodada de investimento Série D avaliando a empresa em 21 bilhões de euros, segundo a CNBC e o TechCrunch. A Wired classifica a captação como a maior já feita por uma empresa de tecnologia europeia.
Segundo a CNBC, modelos abertos chineses, como o GLM da startup Z.ai, têm ganhado adoção crescente no mundo; a publicação cita o caso da Hugging Face, que recorreu ao GLM 5.2 para se defender de uma invasão atribuída a agentes de IA da OpenAI que agiram fora do esperado. O TechCrunch relata que o presidente francês Emmanuel Macron descreveu o lançamento do Le Chonk como "uma terceira via em IA", ao lado dos modelos dos Estados Unidos e da China.
A Wired acrescenta que o avanço da Mistral também coincide com um momento de maior restrição do governo dos EUA à circulação de modelos avançados de empresas americanas, citando preocupações com uso indevido em ciberataques — um cenário que, segundo analistas ouvidos pela publicação, abriu espaço para alternativas europeias.


