A Apple anunciou que vai reforçar os controles do recurso Full Disk Access (acesso total ao disco) no macOS, citando o crescimento dos riscos ligados a agentes de inteligência artificial com esse nível de permissão, segundo o TechCrunch, o The Verge e a Ars Technica.
Full Disk Access é uma permissão do macOS que dá a um aplicativo acesso ao sistema inteiro do usuário: arquivos, e-mails, mensagens e até o histórico de navegação. Segundo a Apple, o recurso foi criado para permitir que programas de backup funcionassem corretamente, mas hoje "alguns desenvolvedores o usam de formas que podem colocar os usuários em risco [...] sem o conhecimento e entendimento completo deles".
A partir de agora, segundo a empresa, apps só poderão obter esse nível de acesso mediante "ação explícita" do usuário. "À medida que os agentes de IA se tornam cada vez mais capazes e autônomos, os riscos associados a esse nível de acesso vão crescer substancialmente", disse a Apple, segundo as três publicações. A empresa não informou quando a mudança entra em vigor, de acordo com o TechCrunch e o The Verge.
O caso que motivou a mudança
O anúncio veio depois que o colunista Jason Aten, da Inc., relatou que o assistente de IA Muse, da Meta, soube do conteúdo de uma conversa sua no aplicativo Mensagens mesmo sem ele ter concedido permissão explícita para isso, segundo as três publicações. O episódio repercutiu nas redes sociais na semana anterior ao comunicado da Apple, de acordo com a Ars Technica.
A Meta contestou a versão do colunista. O porta-voz Andy Stone afirmou que o acesso às Mensagens pelo Muse é "totalmente opcional" e exige que o usuário ative tanto o Full Disk Access quanto um conector específico de Mensagens dentro do app, segundo o The Verge. O diretor de tecnologia da Meta, David Singleton, repetiu a mesma explicação à Ars Technica, atribuindo o episódio a uma configuração feita pelo próprio usuário.
Dúvidas técnicas sobre a resposta da Meta
A Ars Technica ouviu o pesquisador de segurança do macOS Patrick Wardle, que questionou a explicação da Meta: segundo ele, qualquer aplicativo com Full Disk Access pode ler qualquer arquivo não protegido do sistema, incluindo histórico de navegação, cookies e conversas, independentemente de conectores adicionais. A Meta não respondeu às novas perguntas enviadas pela Ars Technica sobre essa contradição.
Ainda segundo a Ars Technica, o comunicado da Apple veio 11 dias depois de Wardle ter revelado uma falha de configuração do Muse que permitia a qualquer código rodando no Mac, inclusive comandos injetados por ataques do tipo ClickFix, assumir o controle total do assistente de IA. A publicação também cita que a Amazon já havia removido o Muse de sua loja de aplicativos antes do episódio, alegando que esse tipo de assistente deveria operar de forma aberta e respeitar as decisões das plataformas.
O TechCrunch observa ainda que o comunicado da Apple ocorre na esteira de um relatório da Wired sobre uma falha no aplicativo do ChatGPT para Mac que, segundo essa reportagem, poderia ter permitido a hackers acessar dados sensíveis dos usuários. A Apple não citou a Meta, o Muse ou qualquer outro desenvolvedor por nome em seu comunicado, voltado a desenvolvedores de aplicativos para macOS.
O comunicado da Apple também trata especificamente de aplicativos de comunicação, alertando que o uso indevido do Full Disk Access "também pode comprometer a privacidade das pessoas com quem os usuários se comunicam", não só a do dono do aparelho, segundo a Ars Technica. O The Verge destaca que a permissão "praticamente contorna" os controles de privacidade que o macOS normalmente exibe ao usuário, já que foi criada originalmente para que softwares de backup funcionassem direito.
O TechCrunch incluiu depois uma correção em sua reportagem: uma versão anterior do texto descrevia a Apple como estando "limitando" permissões, formulação revisada pela publicação para deixar claro que a mudança diz respeito a exigir consentimento informado, e não a impor um novo limite técnico ao que o Full Disk Access pode fazer.
Procurada pelo TechCrunch e pelo The Verge, a Apple não respondeu aos pedidos de comentário adicionais sobre a mudança.


